2131 – I, X

De volta a Pinda, tivemos duas semanas dias de descanso. Entregamos os crânios ao ministro.

Fiquei quase todo o tempo no meu apartamento funcional, perto do centro. Eu não sabia onde Froilão morava, pois era vetado aos agentes saberem da vida pessoal dos colegas; conhecia apenas sua paixão pela numismática e os álbuns que ele confeccionava. Sua coleção era notória nos círculos técnicos por ser uma das mais completas; e também era seu álibi. Ele mantinha uma loja de artigos numismáticos na avenida Jorge Tibiriçá, que era o único local em que podíamos nos encontrar fora do trabalho.

Um dia de tarde, entediado, peguei o metrô e fui até lá.

A loja ficava em um escritório, no terceiro andar de um prédio baixo. Entrei, e Froilão saiu de sua mesa, onde havia uma luminária fixa, lentes e moedas, e abaixou o som ambiente, que tocava uma sinfonia de Mahler.

— Martim! Como vai?

Froilão tirou uma garrafa de uísque e dois copos de um armário.

— Vamos tomar uma!

Os ambientes em que ficam os espiões são totalmente limpos. Afinal, quem vai conseguir pôr escutas onde estiver um espião treinado? Froilão tinha duas décadas de serviço; era extremamente cuidadoso.

— Sabe, estive lendo umas coisas e acho que sei por que Geraldo tem tanto interesse no crânio.

Eu ainda não sabia, mas o crânio sólido que estava dentro do esquife não era de pedra, mas de cristal de quartzo.

— Nos laboratórios da comissão, os nossos técnicos retiraram a camada de tinta. Geraldo sabia que era um crânio de quartzo, e era o que lhe interessava. O outro, o de verdade, foi mandado para o Museu Nacional de História, onde ficará longe de olhos curiosos. O Saraiva trabalha lá.

Saraiva era outro agente da comissão, considerado também muito eficiente. O crânio de Tibiriçá teria que ficar oculto, pois indicaria uma incursão ilegal em território paraguaio, que poderia causar desde uma crise diplomática até a retomada das hostilidades.

— Pois é, Froi. Imagine a crise diplomática se esse crânio aparecesse aqui em Pinda.

Conversamos do mais e do menos; Froilão me mostrou as moedas que tirara das ruínas, em nossa primeira visita à ilha.

— Vão me dar um bom dinheiro, umas 10 ou 15 mil libras.

O meu álibi era ser funcionário administrativo de um frigorífero, no qual aparecia de quando em quando. Os outros funcionários do matadouro me desprezavam um pouco, pois, aparecendo quase nunca, era tido como rico, parente do dono. E era exatamente esse papel que a comissão me deu: um bon-vivant.

— É bom ter um álibi rentável. E o que você leu sobre o crânio, Froi?

Froilão tirou da gaveta da mesa um livro muito velho, coisa do final do século XX. Estava em inglês, mas a capa puída trazia nitidamente a foto de um crânio de quartzo.

— Está vendo este crânio? Pois bem, o formato dele lembra muito o formato do crânio pintado que recuperamos da urna de Tibiriçá. Se este crânio for o que estivava escondido na urna, temos algo de monta, amigo. Aliás, à noite fomos convocados para comparecer à sede da comissão. Se quiser aguardar aqui, vamos juntos.

Concordei e sentei-me no sofá. As paredes do escritório eram cobertas de quadros com cédulas antigas. Na estante, a biblioteca rara de obras do tema, com tomos até do século XIX. Froilão me deixou com a garrafa de uísque e voltou para a sua escrivaninha.

É curioso não saber nada de quem trabalha com você há tanto tempo. Além de não saber onde morava, não sabia se era casada, se tinha filhos. Trocávamos impressões gerais das coisas, nada muito profundo.

Depois de mais umas doses de uísque, fomos no carro de Froilão à sede da comissão, um desses prédios feios da arquitetura do começo do século XXI que hoje são patrimônio histórico.

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‘Dom Camaleão – Retrato de uma Itália quadrúpede’, prefácio da edição de 1953

De Curzio Malaparte
Tradução: Sérgio Mendes

A fanfara

O leitor, italiano e estrangeiro, de Dom Camaleão deve lembrar-se a cada página de que este meu livro apareceu na Itália pela primeira vez em 1928. Em 1928. E não depois de 1945, quando Mussolini já estava morto e sem ter como defender-se, mas em 1928, quando ele estava vivo, são, prepotente e podia defender-se, como de fato o fez, jogando o livro na fogueira e ameaçando de fazer o mesmo com o autor. (O que fez alguns anos depois, quando foi lançando Técnica do Golpe de Estado). E certamente cumpriria a ameaça se não fosse por aquela liberdade de espírito e pelo “sense of humor” que então possuía e depois os foi perdendo lentamente, para a desgraça da Itália. Se eu já não tivesse publicado Dom Camaleão quando Mussolini vivia, evitaria imprimi-lo novamente.

Muitos homens livres dos nossos dias têm apenas um defeito: o de terem se sentido livres somente depois da morte de Mussolini. Eu sempre me senti um homem livre, mesmo quando estava em Regina Coeli ou em Lípari. O homem nasce livre, não se torna. O leitor de Dom Camaleão verá que sempre fui um homem livre, e que a liberdade não me foi dada de presente pelas baionetas inglesas e americanas, as quais libertaram na Itália apenas os escravos, aqueles que têm natureza de servos e que servos permaneceram mesmo em tempos de liberdade.

*

Em França (Monsieur Caméléon, aux éditions de La Table Ronde, chez Plon, Paris, 1948), Dom Camaleão causou estupor imenso. Parecia impossível que um escritor italiano tivesse ousado escrever e publicar tal livro na Itália, em 1928, com Mussolini vivo. Dom Camaleão chegou oportunamente para desmentir, em França e na Europa, todos aqueles, de Gramsci a Ignazio Silone (cujo verdadeiro nome, e que não poderia ser outro, é Secondino Tranquilli), que por razões alheias à literatura se haviam esforçado para espalhar a lenda de que os escritores que ficaram na Itália sob Mussolini eram servos e cortesãos, instrumentos vis da tirania.

O caso de Gramsci é compreensível e desculpável: ele estava cheio de ódio e desprezo por aquela sociedade (e pela literatura daquela sociedade) que o condenara a apodrecer no cárcere. Ele julgava os homens e os fatos do fundo da sua prisão e falava, por isso, de coisas e de pessoas que não conhecia. Se Gramsci tivesse lido Dom Camaleão, tenho certeza de que mudaria de opinião não apenas a meu respeito, mas sobre todos os escritores daqueles anos que ele chamava, com rancor sectário, de “gângsteres da cultura italiana”.

Do pobre Ignazio Silone, escritorzinho de meia pataca, e dos outros “Secondini” nada há para entender ou desculpar: o que eles diziam e dizem para difamar a literatura italiana é mais verdadeiro para eles do que para nós, que ficamos na Itália. Já que sempre, em todas as épocas e nações, a literatura dos exilados ou é boa, e é paga pelo tirano para que defenda a liberdade de um modo útil à tirania, ou é má, e o tirano nem se preocupa em pagá-la, pois é-lhe útil, se verdade for que ao tirano é proveitoso tudo o que não lhe é nocivo.

*

A literatura dos vários Silone, que escreviam no exílio, com segurança e conforto, é uma canjinha, canja para doentes, diante de Dom Calameão, que não é canja, mas uma fanfara. É assim chamada em Prato uma iguaria local, feita de miúdos de boi ou carneiro, fígado, coração, bofes, intestinos, passarinha, rins, e temperada com muita pimenta vermelha e pimenta-do-reino, de forma que queima qual fogo, e somente paladares fortes podem suportá-la.

O leitor verá que esta minha fanfara parece feita de propósito para queimar a boca de todos os Tranquilli que por tantos anos difamaram os escritores italianos chamando-os de cortesãos e servos, e a todos os Tartufos da Itália, que hoje consideram os escritores livres como os piores e mais perigosos não que a tirania, mas que a liberdade.

Prato, outubro de 1953.

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O espelho e a máscara

De Jorge Luis Borges
Tradução de Sérgio Mendes

Travada a batalha de Clontarf, em que o norueguês foi humilhado, o Alto Rei falou com o poeta e disse-lhe:

— As proezas mais límpidas perdem seu brilho se não são cunhadas em palavras. Quero que cantes minha vitória e minha loa. Eu serei teu Eneias; tu serás meu Virgílio. És capaz de afrontar essa empresa, que tornará nós dois imortais?

— Sim, Rei — disse o poeta —. Eu sou o Ollan. Durante doze invernos cursei as disciplinas da métrica. Sei de cor as trezentas e sessenta fábulas que são a base da verdadeira poesia. Os ciclos de Ulster e de Munster estão nas cordas de minha harpa. As leis autorizam-me a esbanjar as vozes mais arcaicas do idioma e as mais complexas metáforas. Domino a escrita secreta que defende nossa arte do exame indiscreto do vulgo. Posso celebrar os amores, os abactos, as navegações, as guerras. Conheço as linhagens mitológicas de todas as dinastias da Irlanda. Possuo as virtudes das ervas, a astrologia judiciária, a matemática e o direito canônico. Derrotei meus rivais em certame público. Adestrei-me na sátira, que causa doenças de pele, inclusive lepra. Sei manejar a espada, como o provei em tua batalha. Ignoro apenas uma coisa: a de agradecer o dom que me concedes.

O Rei, que se cansava facilmente dos discursos longos e alheios, disse-lhe com alívio:

— Sei de sobejo essas coisas. Acabam de dizer-me que o rouxinol já cantou na Inglaterra. Quando passarem as chuvas e a neve, quando o rouxinol regressar de suas terras sulinas, recitarás tua loa diante da corte e diante do Colégio de Poetas. Dou-te um ano todo. Limarás cada letra e cada palavra. A recompensa, bem o sabes, não será indigna de meu real costume tampouco de tuas vigílias inspiradas.

— Rei, a melhor recompensa é ver teu rosto — disse o poeta, que era também cortesão.

Fez suas reverências e foi-se, já vislumbrando algum verso.

Cumprido o prazo, que foi de epidemias e rebeliões, apresentou o panegírico. Declamou-o com firmeza e segurança, sem sequer olhar o manuscrito. O Rei aprovava-o com a cabeça. Todos imitavam seu gesto, até os que estavam apinhados na porta e não decifravam uma só palavra. Ao final, o Rei falou.

— Aceito tua faina. É outra vitória. Atribuíste a cada vocábulo sua acepção genuína e a cada nome substantivo o epíteto que lhe deram os primeiros poetas. Em toda a loa não há uma só imagem que não tenham usado os clássicos. A guerra é o belo tecido de homens e a água da espada é o sangue. O mar tem seu deus e as nuvens predizem o porvir. Manejaste com destreza a rima, a aliteração, a assonância, as quantidades, os artifícios da douta retórica, a sábia aliteração dos metros. Se toda a literatura da Irlanda se perdesse — omen absit —, poderia ser reconstruída sem perda com a tua ode clássica. Trinta escribas vão transcrevê-la doze vezes.

Houve um silêncio profundo e prosseguiu:

— Tudo está bem e, sem dúvida, nada aconteceu. Nos pulsos o sangue não corre mais com pressa. As mãos não buscaram mais os arcos. Ninguém empalideceu. Ninguém proferiu um grito de batalha, ninguém peitou os Vikings. Ao fim de mais um ano aplaudiremos outra loa, poeta. Como sinal de nossa aprovação, toma este espelho que é de prata.

— Agradeço e entendo — disse o poeta.

As estrelas do céu retomaram sua senda luminosa. Outra vez o rouxinol cantou nas selvas saxãs, e o poeta voltou com seu códice, menos extenso que o anterior. Não o repetiu de cor; leu-o com insegurança perceptível, omitindo algumas passagens, como se ele mesmo não as entendesse completamente ou não as quisesse profanar. A página era singular. Não era uma descrição da batalha, era a batalha. Em sua desordem bélica, agitavam-se o Deus que é Três e é Uno, os numes pagãos da Irlanda e os que guerreariam, centenas de anos depois, no princípio da Edda Maior. A forma não era menos curiosa. Um substantivo singular podia reger um verbo no plural. As preposições eram alheias às normas comuns. A aspereza alternava-se com a doçura. As metáforas eram arbitrárias ou assim pareciam.

O Rei trocou algumas palavras com os homens de letras que o rodeavam e falou desta maneira:

— De tua primeira loa pude afirmar que era um resumo feliz do que se cantou na Irlanda. Esta supera todo o que veio antes e também o aniquila. Eleva, maravilha e deslumbra. Não a merecem os ignaros, mas, sim, os doutos, a minoria. Um cofre de marfim conservará o único exemplar. Da pluma que produziu obra tão eminente podemos esperar ainda uma obra mais excelsa.

Completou com um sorriso:

— Somos figuras de uma fábula e é justo recordar que nas fábulas realça-se o número três.

O poeta atreveu-se a murmurar:

— Os três dons do feiticeiro, as tríades e a indubitável Trindade.

O Rei prosseguiu:

— Como prenda de nossa aprovação, toma esta máscara de ouro.

— Agradeço e entendi — disse o poeta.

O aniversário voltou. As sentinelas do palácio observaram que o poeta não trazia manuscrito algum. Não sem estupor o Rei o observou; era quase outro. Algo, que não o tempo, havia enrugado e transformado seus traços. Os olhos pareciam olhar muito longe ou estar cegos. O poeta rogou ao Rei para dizer-lhe algumas palavras. Os escravos esvaziaram a sala.

— Não fizeste a ode? — perguntou o Rei.

— Sim — disse tristemente o poeta —. Antes Cristo Nosso Senhor mo tivesse proibido.

— Podes dizê-la?

— Não me atrevo.

— Dou-te a coragem que te faz falta — declarou o Rei.

O poeta disse o poema. Era apenas uma linha. Sem se animarem a pronunciá-la em voz alta, o poeta e seu Rei saborearam-na, como se fosse uma oração secreta ou uma blasfêmia. O Rei não estava menos maravilhado e menos desamparado que o outro. Ambos olharam-se, muito pálidos.

— Nos anos de minha juventude — disse o Rei — naveguei até o ocaso. Em uma ilha vi lebréus de ouro que matavam javalis de ouro. Em outra alimentamo-nos com a fragrância das maçãs mágicas. Em outra vi muralhas de fogo. Na mais longínqua de todas, um rio abobadado e alçado sulcava o céu e por suas águas iam peixes e barcos. Essas são maravilhas, mas que não podem ser comparadas a teu poema, que de algum modo as contém. Que bruxaria to deu?

— Ao amanhecer — disse o poeta — lembro-me de dizer algumas palavras que a princípio não entendi. Essas palavras são um poema. Senti que havia cometido um pecado, talvez aquele que o Espírito não perdoa.

— O que agora compartilhamos os dois — o Rei sussurrou —. O de ter conhecido a Beleza, que é um dom proibido aos homens. Agora nos cabe expiá-lo. Dei-te um espelho e uma máscara de ouro; eis o terceiro presente, que será o último.

Pôs-lhe na mão direita uma adaga.

Do poeta sabemos que se matou ao sair do palácio; do Rei, que é um mendigo que recorre os caminhos da Irlanda, que foi seu reino, que nunca repetiu o poema.


O texto em espanhol que serviu de base para esta tradução foi retirado de El Libro de Arena, edição especial publicada pelo jornal argentino La Nación, em 2005, dentro da coleção Biblioteca Esencial.

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Aos meus leitores de Mianmar

Há três países que não usam o sistema métrico decimal, e um membro dessa tríade é Mianmar — os outros dois são os Estados Unidos (oh!) e a Libéria (África Ocidental, cravada entre Guiné, Costa do Marfim e Serra Leoa; de nada).

Das míseras visitas diárias que este blogue tem — quando as tem —, uma ou duas vêm de Mianmar, país da Ásia Meridional vizinho de Bangladesh, Índia, China, Laos e Tailândia. Além das visitas inusitadas, o país me lembra também de um ranço meu: territórios que mudam de nome. Mianmar era anteriormente conhecido como Birmânia, nomenclatura que já era tradicional e mundialmente conhecida; não sei o que se passa na mente de governantes que simplesmente resolvem trocar o nome de um país, como o fez também o sr. Mobutu Sese Seko no Congo-Kinshasa.

O que chama a atenção nessas parcas visitas é sua constância. Uma ou duas, mas diariamente. Não sei o que um birmanês vem aqui procurar. Talvez estude português ou espanhol; talvez seja um hacker. Recebo também acessos desde os EUA, mas sabemos que há muitos brasileiros lá.

De qualquer modo, deixo meu agradecimento aos meus leitores de Mianmar. Boa sorte com o que quer que vocês façam.

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2131 – I, IX

A sala estava do mesmo jeito. Arrumamos um canto menos bagunçado, limpamos o chão e deitamo-nos. A noite de sono curta nos havia deixado quebrados.

Passado um tempo, acordei como se tivesse dormido anos. O relógio me disse que ainda eram 2 da tarde, mas, como o ambiente era desprovido de janelas, não víamos a luz do sol. E poderia ainda estar chovendo. Froilão roncava com as costas apoiadas em uma cadeira deitada. Liguei a lanterna e passei o facho de luz pelo ambiente. Apesar da loucura que era aquilo, a sensação de estar na cripta da Catedral me dava calma; era como estar na casa de um parente mais velho.

Depois de outro cochilo, meu relógio deu o alarme das 8 da noite. Era hora. Acordei e Froilão já estava de pé, procurando moedas.

— Achou algo, Froi?

Ele tirou do bolso um monte de peças, paulistas, brasileiras e até um solano e um bandeirante, ambas as peças de ouro. Estava contente qual pinto no lixo.

Tirei da jaqueta o cortador térmico, e fomos para o sepulcro de Tibiriçá.

— Segure a lanterna no alto, Froi.

Comecei a cortar a junta das pedras de revestimento.

— E se não tiver nada aí?

— Provará apenas que Geraldo é um enrolão que será mandado para Cabinda.

Continuei cortado até que a pedra soltou-se.

— Ilumine lá dentro, Froi.

O facho de luz mostrou uma urna preta. Confesso que aquilo me deu alguma emoção. Arrastamo-la para fora, e passei o cortador na tranca. Dentro, ossos. Fêmur, tíbia, como se fosse um jogo de montar, mas sem sinal de um crânio. Começamos a tirar os ossos e, no fundo, finalmente um crânio esquisito. Pusemo-lo à luz.

— Não é de osso; pesa uma tonelada.

Parecia um crânio esculpido de pedra.

— É maciço. Duvido que seja o crânio de Tibiriçá.

Dentro do nicho, no fundo, um crânio de verdade, oco. O que seria aquele negócio?

— E qual levamos? — Perguntou Froilão.

— Levamos os dois. Geraldo decide o que vai fazer com eles… talvez em Cabinda.

Esperamos ainda que desse uma e meia da manhã.

— Será que está chovendo?

— Pode ser.

Saímos e chovia. Provavelmente não havia tido excursões à ilha naquele dia. Caminhamos de volta a São Bento. Eram dez pra uma quando chegamos à prainha; resolvemos nos acoitar em um ônibus abandonado, parado diante do templo e ligamos o radiocomunicador. Mais uns minutos, um bipe, o sinal; fomos à praia e uma silhueta pairava na água; era a torre do Arirang. Nadamos até ela, e dei três pancadinhas na escotilha, que se abriu impulsionada por Echeverría.

— Muito bem, cavalheiros. Agora a cereja do bolo. Peguem este negócio e o instalem na torre da igreja de São Bento. É um transmissor codificado que nos dirá, a cada três horas, a posição dos navios da Armada Paraguaia.

Voltamos à praia e foi fácil subir à torre da igreja, embora estivesse empesteada de morcegos. Escondemos o transmissor nas traves do telhado, o cobrimos com palha que havia ali, de um ninho abandonado, e voltamos para o submarino.

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“Código de Ética do Jornalismo”, de Artur Azevedo

Código de Ética do Jornalismo
(Artur Azevedo)

Parágrafo primeiro:
Se acaso és brasileiro,
Declara-te estrangeiro.
Parágrafo segundo:
Mostra-te furibundo
E ofende a todo mundo.
Parágrafo terceiro:
Embora o derradeiro,
Reputa-te o primeiro.
Quarto: Não é preciso
Que tu tenhas juízo.
Tira o dente do siso.
Quinto: Não é vileza
Tratar com ligeireza
A língua portuguesa.
Sexto: Que não te mace,
Nem mesmo te embarace,
A estúpida sintaxe.
Sétimo: Com cinismo,
Comete um solecismo,
E adota um galicismo.
Oitavo: Impertinente,
Oferece, diariamente,
Lições a toda gente.
Nono: Se em qualquer arte
Lições quiserem dar-te,
Não vás incomodar-te…
Décimo: Escolhe as tintas,
Com que ao mundo te pintas,
Embora ao mundo mintas.

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Impressões urbanas

Há muito eu pensava em escrever este texto, e foi bom tê-lo feito somente agora, depois de repensar o tema.

O que é uma cidade? A resposta pode ser tão marota quanto a definição de palavra que me foi dada em uma aula de filologia, de que palavra é o que há entre dois espaços tipográficos: a cidade é um aglomerado de construções. O Dicionário Houaiss traz-nos algo dessa linha, apenas mais rebuscado:

Aglomeração humana localizada numa área geográfica circunscrita e que tem numerosas casas, próximas entre si, destinadas à moradia e/ou a atividades culturais, mercantis, industriais, financeiras e a outras não relacionadas com a exploração direta do solo; urbe.

A introdução do adjetivo “humana” para qualificar “aglomeração” é absolutamente desnecessária; o conceito de cidade é um fenômeno humano e só pode ser usado para os chamados animais sociais como metáfora, já que suas colônias são algo mais parecido com fábricas ou campos de trabalho.

Voltando à cidade, vou usar como modelo a única que acredito conhecer com alguma profundidade: a metástase de concreto chamada São Paulo. E conhecer com alguma profundidade significa conhecer ambientes prototípicos, que possam responder por outros, já que o paulistano circula muito, pois geralmente não vive perto do trabalho, mas conhece pouco, pois limita-se a aglomerações de serviços em áreas determinadas, como o Centro, a região da avenida Paulista, a área da Berrini e outras. Um habitante da Cidade Líder, na Zona Leste, não tem motivo algum para ir à Brasilândia, na Zona Norte, salvo que alguma relação pessoal o ligue à área. O paulistano pode passar anos deslocando-se da sua casa ao trabalho sem prestar atenção aos nomes das avenidas por que trafega, que dirá descer em algum ponto para conhecer a área ao redor, afinal, tal ação não é segura ou producente. E o mesmo comportamento do paulistano, deve tê-lo o nova-iorquino ou o londrino.

Eu fui um paulistano de pés rápidos. Para desespero dos meus pais, durante o começo da minha adolescência, andei por São Paulo como turista: visitei igrejas, museus, espaços históricos, estações de trem como poucos paulistanos devem ter feito. É claro que assim que tive consciência do perigo que é andar por São Paulo, o instinto de conservação falou mais alto, e passei a sair bem menos. Guardo desses lugares seus nomes e as impressões que me causaram; refiro-me a eles com familiaridade, mesmo que em alguns casos a visita tenha sido há mais de vinte anos.

Mas fora dos pontos de referência — falar em ponto “turístico” em São Paulo seria quase um estupro do adjetivo —, há aquela massa de casas, nas áreas periféricas, e de prédios, na área central ou nos bairros semiperiféricos eleitos como queridinhos do mercado imobiliário. Em alguns lugares, como aquela Vila Carrão que não é Vila Carrão, à beira da Radial Leste, os edifícios, angulosos e refulgentes, elevam-se como ofensas ao céu e formam verdadeiros paredões, como castelões de contos de fada.

O aspecto da cidade tem relação direta com seus habitantes e as condições socioeconômicas destes. Recorro às impressões da minha infância. Dos seis aos 29 anos, vivi em um bairro paulistano chamado Jardim Brasília, na Zona Leste, às margens da avenida Itaquera. No período de 1987 a 1993, as lembranças que tenho do bairro são de casas sem terminar, muitas sem reboque, de armações de aço das colunas incompletas que arranhavam o horizonte. No começo, a rua não tinha asfalto, que chegou apenas no fim de 1989, com direito a discurso da então prefeita, Luiza Erundina, da calçada de casa. Eu mesmo não o vi ou ouvi, pois estava na escola, terminando o primeiro ano do primeiro grau. Os tons dominantes na paisagem eram o cinza das casas incompletas e o vermelhão das ruas sem pavimento; aqueles que podiam um pouco mais pintavam suas casas invariavelmente de branco. Havia ainda o cinza sujo dos telhados de amianto, que davam um aspecto escamoso às bordas do horizonte, e casas com chão de terra batida; me lembro de ter entrado em alguns cômodos assim. Lembro-me de gente que criava porcos e galinhas. Havia ainda Fuscas, centenas deles; o raro ruído do motor Volks era o que se ouvia na avenidinha acanhada do bairro, onde ficavam as escolas, o bazar, a lotérica e aquele que foi o único restaurante do bairro por mais de vinte anos. Um restaurante sujo, com uma mesa apenas, cujo único habitué era o barbeiro do bairro.

Com a melhora progressiva da situação econômica, as casas foram terminadas. Reboque e pintura faziam-nas parecer maiores do que realmente eram; as esquadrias de alumínio refulgiam de novas. Colocava-se revestimento de pedra em meia parede; alguns telhados de amianto ganharam telhas cerâmicas. E assim foi da minha adolescência até a idade adulta.

Adulto já feito, mudei de cidade, vim para o interior do Estado. Moro em um bairro que lembra muito a Vila Matilde nos anos 80, não a de hoje, com prédios residenciais altos e que tem até uma lanchonete Subway, mas aquele bairro acanhado, de casas baixas no topo de uma colina e de velhas conversando na porta de casa.

Quando volto a São Paulo, ao bairro onde ainda tenho família, parece que o progresso fez grandes alterações; de fato, no espaço de seis anos, o lugar é outro. Há uma predominância de tons berrantes; pintam-se as casas de verde-abacate, amarelo-limão, fúcsia. Agora terminadas, ganham um segundo, terceiro andar, varandas, terraços nas lajes, tudo pintado de cores horríveis; o revestimento de pedra de alguns lugares foi coberto por tinta vulgar. A sujeira impera; apesar do colorido canceroso, há um aspecto encardido, de uma sujeira impossível de tirar, fora as pichações onipresentes e indecifráveis. O hábito nocivo de pôr azulejo de banheiro nas fachadas invadiu algumas áreas de São Paulo. Quanto à cidade, tudo me parece deformado, fora de proporção; tudo é novo, mas é sujo e desgastado ao mesmo tempo. Parece que as construções já nascem decadentes.

É isso que a cidade me passa: um ambiente artificial, compacto, palco de horrores sociais e estéticos. Em suma: um lugar feio. Não há cidades belas no mundo; as há diferentes. Pensemos em Florença: ruelas estreitas, casas de tijolos; havia sim alguma preocupação estética, mas imagine o que era a Florença medieval: as ruelas estreitas, malsãs, com esgoto a céu aberto, sem iluminação noturna. Claro que, aos olhos do turista, hoje, Florença é das cidades mais maravilhosas do mundo, desde que tornada limpa e segura. São Paulo tornar-se limpa e segura não é impossível, mas bela é muito improvável. Uma cidade que se torna outra a cada cinquenta anos não pode ser bela, pois cede à estética — ou à anestética — vigente. Os registros de Militão não me deixam mentir: basta comparar o que era São Paulo em 1870, em 1920 e o que é hoje.

Qual é o nosso conceito de estética urbana atualmente? São as obras medonhas dos discípulos de Le Corbusier ou os frisos romanos pré-moldados que gente cafona sobrepõe a prédios igualmente pré-moldados.

Ou criamos uma estética nova para as cidades, ou fazemos o que já se faz em outras áreas do conhecimento humano, simplesmente chamando de belo o que é feio.

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