Ao vencedor, as batatas

Parece que o portal ACidadeOn, sucessor digital da Tribuna Araraquara, foi escolhido/eleito pela Associação Comercial e Industrial de Araraquara (Acia) como o melhor da cidade.

Ser o melhor portal de internet de Araraquara não significa nada, principalmente com uma concorrência indigente e faminta. Mais uma troca de carícias entre a Acia, que outorgou a “honraria”, e a EPTV, proprietária do portal premiado e afiliada da Rede Globo.

O mais dolorido para Araraquara é que o galardão vai inflar ainda mais o ego da burrocracia da empresa, que, apesar do prêmio, recusa-se a interpretar a cidade, valendo-se de esquemas pré-fabricados.

Aqui, algumas considerações sobre a relação da EPTV com a cidade de Araraquara, apenas para contextualização.

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2131 – I, XI

Começo da noite de 14 de maio, segunda.

Assim que entramos, fomos recebidos pelo comissário, que aparentava nervosismo extremo.

— Rápido, vamos pra sala de reunião do segundo andar.

Pelo prédio todo, policiais. Algo acontecera.

— Entrem, tranquem a porta e sentem-se.

O comissário acendeu apenas as luzes sobre a mesa principal; o restante da sala ficou na penumbra.

— O crânio foi roubado.

Ficamos sem palavras. Quase ninguém tinha conhecimento daquela operação.

— Não temos ideia do que ocorreu; a única pista que temos é o corpo do guarda que vigiava a sala. Ele foi envenenado. Mandamos gente às residências e locais de trabalho de vocês para achá-los, mas, pelo jeito, vocês já estavam a caminho. Geraldo não foi localizado…

Eu e Froilão nos olhamos.

— Comissário…

— E os senhores estão detidos até segunda ordem. Além do maluco e do ministro, apenas nós três tínhamos conhecimento da operação.

Pensei em argumentar, mas o comissário tinha razão. O sumiço de Geraldo e o roubo do crânio poderia ter sido ocultado por nós. Quando se está em operações de inteligência, rapidamente se chega à conclusões corretas.

O comissário saiu e um guarda entrou. Foi uma longa madrugada. Os barulhos no prédio rapidamente cessaram, o que indicava que as buscas e as investigações já estavam em outro lugar. Ficamos sentados naquela sala até o começo do dia seguinte; foi uma longa madrugada. O guarda não abriu a boca durante todas aquelas horas, e tampouco nós. Froilão tinha uma expressão desanimada; certamente se sentia traído por Geraldo.

Por volta de umas 7 horas, um intendente da comissão abriu a porta. Não conhecia aquele rosto. Com ele, entraram mais dois guardas.

— Froilão e Martim, correto?

— Sim.

— Pode algemá-los. — disse o intendente sem olhar para o nosso rosto.

Os guardas nos algemaram, nos retiraram do prédio, nos revistaram e nos puseram em um camburão. Credenciais, documentos e objetos foram confiscados.

Pensei no que seria de nós, onde terminaria tudo aquilo.

Fim da parte I.

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Malaparte e eu

Um de meus modelos literários é Curzio Malaparte. Hostilizado e esquecido na própria terra, a Itália, viveu duas guerras mundiais, testemunhou — e, vejam só, apoiou — a escalada do fascismo, de que rapidamente divorciou-se. Enfrentou desterro e prisão por ser um homem de opinião, um homem livre, como ele mesmo se definia. Ver, e principalmente viver, tanta coisa deu a Malaparte matéria à sua pena barroca; páginas e páginas de beleza e horror, como se fossem quadros de Bosch ou de El Greco, os aromas do campo ucraniano, um banquete numa legação diplomática em Helsinque.

Malaparte testemunhou e escreveu sobre os acontecimentos da Segunda Guerra diretamente das frentes de batalha. Depois do armistício de 1943, deixa a Itália — agora nas mãos dos alemães — e passa a colaborar com os Aliados. Seus dois melhores livros são relatos desse período; livros que qualquer pessoa que queira entender o decorrer da Segunda Guerra e o estofo de que é feito a Humanidade precisa ler.

Cada página de Malaparte é uma obra-prima, pois nelas há o que importa ser escrito e o talento de quem sabe escrever.

Comecei o texto falando de mim, indicando que Malaparte é um dos meus modelos. Agora, repensando, comecei dizendo que Malaparte é uma referência para mim. Dizer que ele é meu modelo equivale a dizer que consigo emulá-lo. Quem mo dera!

Gosto de literatura. Não de qualquer literatura, pois é sim preciso fazer diferença. Mas entre gostar de literatura e saber manejá-la há um abismo. A literatura é a mais bela e importante forma de arte, pois faz de palavras, das que usamos no dia a dia, material chão, base para reconstruir a realidade, matizar sentidos; escrever é ser um pouco Deus: fazer um boneco de barro e dar-lhe vida com um sopro. Tento há muito fazer algo que preste, mas entre as várias fases de textos sensaborões, hiatos longos. Agora mesmo saio de um deles. Jamais os chamaria de “jejum criativo”; fazê-lo seria a imodéstia suprema.

Malaparte viveu um período complicado da Humanidade e no epicentro da maior guerra do mundo até o momento. A mais assustadora porque não correu nos lamaçais ao sul, mas no miolo da civilização. Para mim — e quando digo para mim, digo também para qualquer aspirante a escritor coetâneo meu — parece que tudo já foi dito. O que escrever sem cair no banal ou no vulgar? Temáticas estas que são populares, claro, que despertam interesse, mas a cobra da vulgaridade muda de pele frequentemente e o que hoje interessa a todos pode ser comida de traça daqui a dez anos.

Claro que, além dos temas, é preciso talento. Nem todos tem a sorte de conjugar um período de vida interessante com o talento. E de modo algum digo que talento é dom. Não é. Talento é aperfeiçoamento. A sorte de Malaparte foi a conjunção do seu talento com o período.

Mas pode ser que eu esteja choramingando. Machado de Assis viveu numa sociedade provinciana, à borda do mundo, e construiu uma obra fantástica, pois explorou o que tinha mais à mão: a boçalidade humana.

Então, o que me resta? Ou melhor, o que nos resta, pois não estou sozinho nesse dilema. A vulgaridade oca dos hipsters de padaria que imitam Bukowski? A putaria obrigatória dos autores do Baixo Augusta? O relativismo cínico dos escrivinhadores da cantina da Letras da USP? O sicofantismo doentio que tomou conta de todos?

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O fulgurante comércio de Araraquara

O comércio de Araraquara é famoso pelo mau atendimento. Mesmo os aborígenes têm essa opinião. Não obstante a folclórica má vontade, o comércio araraquarense é falto. Não tem quase nada além do estritamente básico; a imaginação não tem lugar, pois lhe falta o suporte material.

Narro dois fatos acontecidos comigo, ou seja, não é de orelha ou mera reprodução de boatos: vêm dos dedos que marcam estas teclas.

I

Por conta de uma pequena reforma em casa, fui a uma grande loja de ferragens de Araraquara. Aliás, loja em que você não consegue comprar um arame sem ter de falar com vendedor, quando não tem de fazer o objeto vir do almoxarifado. Pois bem; peguei o que precisava, um martelo incluso, e quando a vendedora perguntou se eu desejava mais alguma coisa, respondi-lhe que sim, pois não havia achado pregos.

— Não trabalhamos com pregos.

Sempre que alguém me diz que trabalha ou não com algo, imagino-a tendo por colegas de trabalho os objetos.

— Não trabalham? Um lugar que vende martelos, mas não vende pregos?

— Trabalhamos [de novo] apenas com ferramentas. — Uma resposta úmida como um golpe de vento no Sertão ao meio-dia.

É como um lugar que vende coador de papel para café e não vende o pó, ou cigarros, mas não isqueiro. É ilógico.

II

Há produtos que saem de moda, como certas peças de vestuário ou algumas palavras. O fato de algo não ser mais usado, ou pouco usado, não quer dizer que não exista. Mas quando você entra em algum lugar e o atendente faz cara de quem tivesse sido interpelado em servo-croata, você se sente um alienígena.

— Boa tarde. Tem goma-arábica?

— Quê?! — Nesse tom, entre a mofa e o descrédito, como se estivesse sendo vítima de uma pegadinha, me respondeu a balconista magrela.

— Go-ma-a-rá-bi-ca. — Talvez ela não tivesse entendido da primeira vez, eu compreendo; às vezes mastigo um pouco as palavras. Repito o pedido, silabando-o.

— Gomarábica?

— Goma. Arábica.

— E pra que serve?

— Ora, pra colar. Antigamente tinha nos correios, pra fechar as cartas… — Entreguei o quão antiga é essa história de goma-arábica.

— Ah, cartas. Não tem. — Se é para cartas, é coisa de velho. Logo, não há.

Agradeci e virei as costas. Pude sentir o olhar da magricela me queimando a nuca. Certeza que, na sequência, chamou os outros empregados e contou dum maluco que veio tirar um sarro dela dizendo que procurava “gosmarábica”.

— Ha! Mas eu sou mais esperta. Todo mundo sabe que papel se cola com cola.

E apenas como arremate, fica a vez em que tive de explicar a uma atendente de papelaria o que era uma caneta hidrográfica.

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O triunfo da má vontade

Quando o grupo EPTV comprou a antiga Tribuna Impressa de Araraquara, em 2011, ficou claro que seus burocratas não entendiam a cidade. A administração alienígena, mofina e ao mesmo tempo assustadiça, nunca entendeu Araraquara; nunca quis entendê-la; achava que os conceitos que formados sobre Ribeirão Preto — então o novo centro de irradiação da corporação sobre o jornal e onde o grupo já havia adquirido outro jornal tradicional, A Cidade — seriam eficazes.

Araraquara não é uma cidade fácil de compreender. É de tamanho médio, com uma economia igualmente média, condizente com seu tamanho, mas cuja mentalidade é de cidade pequena, para bem e para mal. O araraquarense é bairrista, principalmente o araraquarano — um nome engraçado usado pejorativamente para designar o patriciado. É zeloso da sua cidade, do seu time de futebol, das suas instituições sociais.

A cidade torceu um pouco o nariz quando seu principal veículo impresso caiu na mão de “estrangeiros”. O assunto não passou despercebido pelos centros de poder, do Sexto Andar da Prefeitura aos bancos polidos por nádegas edílicas da Ca-Suco.

No fim das contas, Araraquara aceitou a Tribuna; ou a reaceitou. Afinal, seu quadro de jornalistas era basicamente o mesmo, com gente da terra. O cenário, depois da aceitação, parecia promissor. O principal concorrente, O Imparcial, jornal venerando, mas mal administrado e moribundo, perdia vitalidade e anunciantes. Várias pesquisas davam à Tribuna o primeiro lugar da mídia impressa em Araraquara, inclusive à frente dos jornalões capitalinos.

Parecia que a coisa finalmente andava. O problema, não o principal, mas um dos maiores, foi o medo que a burocracia do grupo mostrava em suas relações com a Administração Pública. O medo de indispor-se com o Poder Público tornou-se a tônica depois de um tempo, o que resultou em alterações em matérias e uma censurinha básica a articulistas. Fique registrado, para que não sejamos injustos, que essas censurinhas eram, na verdade, sugestões, feitas por telefone, de Ribeirão Preto, em um tom paternalista e carinhoso. E outro: era o único jornal realmente idôneo da cidade, não obstante a pusilanimidade administrativa.

A crise finalmente bateu às portas. A Tribuna, mesmo antes da marolinha, já vinha com um quadro enxuto. A foice passou várias vezes pela redação; editorias foram cortadas, o papel encolheu, o número de páginas foi reduzido; até que ficassem uns gatos pingados, a quem, infelizmente, coube a difícil tarefa de apagar as luzes e fechar as portas; estamos em janeiro de 2017, 10 de janeiro.

A estratégia do grupo foi substituir a Tribuna por A Cidade, o jornal de Ribeirão Preto, com uma página dedicada a Araraquara. Apenas para exemplo, usemos a edição de hoje (11/7) para ver como andam as coisas. Não há um anúncio sequer de empresas de Araraquara. Ou seja: a aceitação local é nula, ou próximo disso.

A EPTV não entende Araraquara. Nunca a entendeu e continua não fazendo o menor esforço para entendê-la. Trouxe um jornal de fora, feito por gente de fora, para circular numa cidade extremamente bairrista. A empreitada está fadada ao fracasso: A Cidade foi oferecida no lugar da Tribuna para os assinantes; grande parte deles declinou a oferta. É triste: porque, ao fim e ao cabo, era um bom jornal, além de deixar uma cidade que tem um curso de jornalismo órfã de publicações periódicas com um mínimo aceitável de qualidade. Brevemente estaremos novamente relegados às páginas mal-diagramadas e um pouco sibilinas de O Imparcial. Horácio já nos deixou por escrito como terminam essas cabeçadas: parturiunt montes, nascetur ridiculus mus, ou seja, os montes estão em trabalho de parto: nascerá um rato ridículo.

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2131 – I, X

De volta a Pinda, tivemos duas semanas dias de descanso. Entregamos os crânios ao ministro.

Fiquei quase todo o tempo no meu apartamento funcional, perto do centro. Eu não sabia onde Froilão morava, pois era vetado aos agentes saberem da vida pessoal dos colegas; conhecia apenas sua paixão pela numismática e os álbuns que ele confeccionava. Sua coleção era notória nos círculos técnicos por ser uma das mais completas; e também era seu álibi. Ele mantinha uma loja de artigos numismáticos na avenida Jorge Tibiriçá, que era o único local em que podíamos nos encontrar fora do trabalho.

Um dia de tarde, entediado, peguei o metrô e fui até lá.

A loja ficava em um escritório, no terceiro andar de um prédio baixo. Entrei, e Froilão saiu de sua mesa, onde havia uma luminária fixa, lentes e moedas, e abaixou o som ambiente, que tocava uma sinfonia de Mahler.

— Martim! Como vai?

Froilão tirou uma garrafa de uísque e dois copos de um armário.

— Vamos tomar uma!

Os ambientes em que ficam os espiões são totalmente limpos. Afinal, quem vai conseguir pôr escutas onde estiver um espião treinado? Froilão tinha duas décadas de serviço; era extremamente cuidadoso.

— Sabe, estive lendo umas coisas e acho que sei por que Geraldo tem tanto interesse no crânio.

Eu ainda não sabia, mas o crânio sólido que estava dentro do esquife não era de pedra, mas de cristal de quartzo.

— Nos laboratórios da comissão, os nossos técnicos retiraram a camada de tinta. Geraldo sabia que era um crânio de quartzo, e era o que lhe interessava. O outro, o de verdade, foi mandado para o Museu Nacional de História, onde ficará longe de olhos curiosos. O Saraiva trabalha lá.

Saraiva era outro agente da comissão, considerado também muito eficiente. O crânio de Tibiriçá teria que ficar oculto, pois indicaria uma incursão ilegal em território paraguaio, que poderia causar desde uma crise diplomática até a retomada das hostilidades.

— Pois é, Froi. Imagine a crise diplomática se esse crânio aparecesse aqui em Pinda.

Conversamos do mais e do menos; Froilão me mostrou as moedas que tirara das ruínas, em nossa primeira visita à ilha.

— Vão me dar um bom dinheiro, umas 10 ou 15 mil libras.

O meu álibi era ser funcionário administrativo de um frigorífero, no qual aparecia de quando em quando. Os outros funcionários do matadouro me desprezavam um pouco, pois, aparecendo quase nunca, era tido como rico, parente do dono. E era exatamente esse papel que a comissão me deu: um bon-vivant.

— É bom ter um álibi rentável. E o que você leu sobre o crânio, Froi?

Froilão tirou da gaveta da mesa um livro muito velho, coisa do final do século XX. Estava em inglês, mas a capa puída trazia nitidamente a foto de um crânio de quartzo.

— Está vendo este crânio? Pois bem, o formato dele lembra muito o formato do crânio pintado que recuperamos da urna de Tibiriçá. Se este crânio for o que estivava escondido na urna, temos algo de monta, amigo. Aliás, à noite fomos convocados para comparecer à sede da comissão. Se quiser aguardar aqui, vamos juntos.

Concordei e sentei-me no sofá. As paredes do escritório eram cobertas de quadros com cédulas antigas. Na estante, a biblioteca rara de obras do tema, com tomos até do século XIX. Froilão me deixou com a garrafa de uísque e voltou para a sua escrivaninha.

É curioso não saber nada de quem trabalha com você há tanto tempo. Além de não saber onde morava, não sabia se era casada, se tinha filhos. Trocávamos impressões gerais das coisas, nada muito profundo.

Depois de mais umas doses de uísque, fomos no carro de Froilão à sede da comissão, um desses prédios feios da arquitetura do começo do século XXI que hoje são patrimônio histórico.

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‘Dom Camaleão – Retrato de uma Itália quadrúpede’, prefácio da edição de 1953

De Curzio Malaparte
Tradução: Sérgio Mendes

A fanfara

O leitor, italiano e estrangeiro, de Dom Camaleão deve lembrar-se a cada página de que este meu livro apareceu na Itália pela primeira vez em 1928. Em 1928. E não depois de 1945, quando Mussolini já estava morto e sem ter como defender-se, mas em 1928, quando ele estava vivo, são, prepotente e podia defender-se, como de fato o fez, jogando o livro na fogueira e ameaçando de fazer o mesmo com o autor. (O que fez alguns anos depois, quando foi lançando Técnica do Golpe de Estado). E certamente cumpriria a ameaça se não fosse por aquela liberdade de espírito e pelo “sense of humor” que então possuía e depois os foi perdendo lentamente, para a desgraça da Itália. Se eu já não tivesse publicado Dom Camaleão quando Mussolini vivia, evitaria imprimi-lo novamente.

Muitos homens livres dos nossos dias têm apenas um defeito: o de terem se sentido livres somente depois da morte de Mussolini. Eu sempre me senti um homem livre, mesmo quando estava em Regina Coeli ou em Lípari. O homem nasce livre, não se torna. O leitor de Dom Camaleão verá que sempre fui um homem livre, e que a liberdade não me foi dada de presente pelas baionetas inglesas e americanas, as quais libertaram na Itália apenas os escravos, aqueles que têm natureza de servos e que servos permaneceram mesmo em tempos de liberdade.

*

Em França (Monsieur Caméléon, aux éditions de La Table Ronde, chez Plon, Paris, 1948), Dom Camaleão causou estupor imenso. Parecia impossível que um escritor italiano tivesse ousado escrever e publicar tal livro na Itália, em 1928, com Mussolini vivo. Dom Camaleão chegou oportunamente para desmentir, em França e na Europa, todos aqueles, de Gramsci a Ignazio Silone (cujo verdadeiro nome, e que não poderia ser outro, é Secondino Tranquilli), que por razões alheias à literatura se haviam esforçado para espalhar a lenda de que os escritores que ficaram na Itália sob Mussolini eram servos e cortesãos, instrumentos vis da tirania.

O caso de Gramsci é compreensível e desculpável: ele estava cheio de ódio e desprezo por aquela sociedade (e pela literatura daquela sociedade) que o condenara a apodrecer no cárcere. Ele julgava os homens e os fatos do fundo da sua prisão e falava, por isso, de coisas e de pessoas que não conhecia. Se Gramsci tivesse lido Dom Camaleão, tenho certeza de que mudaria de opinião não apenas a meu respeito, mas sobre todos os escritores daqueles anos que ele chamava, com rancor sectário, de “gângsteres da cultura italiana”.

Do pobre Ignazio Silone, escritorzinho de meia pataca, e dos outros “Secondini” nada há para entender ou desculpar: o que eles diziam e dizem para difamar a literatura italiana é mais verdadeiro para eles do que para nós, que ficamos na Itália. Já que sempre, em todas as épocas e nações, a literatura dos exilados ou é boa, e é paga pelo tirano para que defenda a liberdade de um modo útil à tirania, ou é má, e o tirano nem se preocupa em pagá-la, pois é-lhe útil, se verdade for que ao tirano é proveitoso tudo o que não lhe é nocivo.

*

A literatura dos vários Silone, que escreviam no exílio, com segurança e conforto, é uma canjinha, canja para doentes, diante de Dom Calameão, que não é canja, mas uma fanfara. É assim chamada em Prato uma iguaria local, feita de miúdos de boi ou carneiro, fígado, coração, bofes, intestinos, passarinha, rins, e temperada com muita pimenta vermelha e pimenta-do-reino, de forma que queima qual fogo, e somente paladares fortes podem suportá-la.

O leitor verá que esta minha fanfara parece feita de propósito para queimar a boca de todos os Tranquilli que por tantos anos difamaram os escritores italianos chamando-os de cortesãos e servos, e a todos os Tartufos da Itália, que hoje consideram os escritores livres como os piores e mais perigosos não que a tirania, mas que a liberdade.

Prato, outubro de 1953.

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